Resenha #103 - O Escravo de Capela - Marcos DeBrito

26 agosto 2017

Título: O Escravo de Capela
Autor: Marcos DeBrito
Editora: Faro Editorial
Ano: 2017
Páginas: 288
Para saber mais: Skoob
Livro recebido em parceria com a editora.
Sinopse: Durante a cruel época escravocrata do Brasil Colônia, histórias aterrorizantes baseadas em crenças africanas e portuguesas deram origem a algumas das lendas mais populares de nosso folclore.Com o passar dos séculos, o horror de mitos assustadores foi sendo substituído por versões mais brandas. Em “O Escravo de Capela”, uma de nossas fábulas foi recriada desde a origem. Partindo de registros históricos para reconstruir sua mitologia de forma adulta, o autor criou uma narrativa tenebrosa de vingança com elementos mais reais e perversos. Aqui, o capuz avermelhado, sua marca mais conhecida, é deixado de lado para que o rosto de um escravo-cadáver seja encoberto pelo sudário ensanguentado de sua morte. Uma obra para reencontrar o medo perdido da lenda original e ver ressurgir um mito nacional de forma mais assustadora, em uma trama mórbida repleta de surpresas e reviravoltas.


Sobre o livro

No Brasil Colônia, em 1792, a fazenda Capela, que pertencia a família Cunha Vasconcelos, tem uma grande plantação de cana-de-açúcar e é controlada a punho de ferro pelo proprietário Antônio. A fazenda conta com o trabalho escravo na colheita da cana. Como já esta com a idade avançada, o sonho de Antônio é ver seus filhos assumirem a propriedade em seu lugar, porém somente o filho mais velho, Antônio Segundo, deseja o controle da fazenda, pois o mais novo está na Europa estudando medicina.

Antônio Segundo é o capataz da fazenda. Sempre que precisa castigar um escravo, o faz com extrema violência e prazer. Por isso, poucos “empregados” descumprem ordens ou tentam fugir da fazenda. Mas com a chegada do seu irmão mais novo, Inácio, agora formado, ele verá seu tratamento com os escravos ser questionado. O caçula chega com ideias europeias sobre mão de obra paga e o modo que os empregados devem ser tratados. Isso abala uma a relação dos irmãos, que já não e das melhores. 

Ao mesmo tempo que tem que enfrentar os pensamentos inovadores do irmão, chega à fazenda um novo escravo, Sabola. Sem entender o Português, o novo escravo senti na pele, no primeiro dia na fazenda, a fúria de Antônio Segundo. Diferentes dos outros homens, Sabola não vai aceitar os maus-tratos do capataz. Com a cabeça cheia de pensamentos de fúria e ódio, ele vai conhecer Akili, o escravo mais velho da fazenda. Juntos os dois vão planejar a fuga de Sabola e uma vingança contra a familia Cunha Vasconcelos.

Contudo, algo dá errado nessa fuga, e a consequência desse ato muda a vida de todos na fazenda Capela.


Minha opinião


Eu solicitei esse livro sem saber muito sobre ele. Como eu tinha achado interessante o fato da história ser uma releitura de uma lenda do folclore brasileiro e ao mesmo tempo de horror, resolvi dar uma chance para o livro. Acertei ao solicitá-lo, pois desde a primeira página fiquei imersa na leitura. Apesar de eu não ter achado o livro de terror, pois não me causou medo, confesso que algumas cenas me causaram repulsa e pavor.

Pegar não uma, mas duas lendas brasileiras e contar a origem delas nesse contexto do Brasil foi muito criativo. DeBrito fez uma vasta pesquisa sobre o brasil escravocrata, o que fica evidente durante a leitura, pois ele retratou tudo com muita perfeição. Inclusive o autor mostra que os negros não podiam mais falar sua língua de origem nem seguir suas crenças, sendo obrigados a frequentar missas da igreja católica.

Marcos conseguiu dar características muito marcantes aos seus personagens. Temos o pai, que mesmo deixando a fazenda praticamente nas mãos do filho mais velho ainda se impõem quando necessário. O filho mais velho, totalmente cruel e sanguinário, que não pensa em ninguém e só quer saber de castigar escravos. Inácio, o caçula, trazendo ideias inovadoras e tratando os escravos de igual para igual. Até mesmo um dos empregados da fazenda ganhou destaque por ao mesmo tempo em que fica ao lado de Antônio Segundo, consegue fazer com quer o patrão pare suas atrocidades quando necessário.



Com uma escrita simples, fluida e envolvente, o livro traz um retrato de uma realidade que já foi a nossa. A narrativa em terceira pessoa possibilita ao leitor acompanhar tudo que acontece na fazenda. O autor não poupa nos detalhes das cenas de “castigos” aos escravos, a maioria com muito sangue. Toda a humilhação, tortura, assédio sofrido pelos escravos, me causou revolta. Além de tudo isso, um segredo de família vem a tona e um jogo entre a realidade e o sobrenatural confundem a todos na fazenda.

A edição está muito caprichada e bonita. As bordas das páginas em vermelho ficaram perfeitas com o tom escuro da capa. Nas primeiras páginas, há algumas ilustrações, e o início dos capítulos possuem um detalhe.

O escravo de capela foi uma ótima surpresa. Com um enredo inteligente e criativo, o livro choca pela sua brutalidade ao mostrar uma época que infelizmente existiu. Para quem gosta de tensão, terror e uma boa história com contexto histórico, esse livro é o ideal. 

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