Resenha: O Quarto de Giovanni - James Baldwin

17 novembro 2018

Título: O Quarto  de Giovanni
Título original: Giovanni's Room
Autor: James Baldwin
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2018
Páginas: 232
Para saber mais: Skoob
Livro recebido em parceria com a editora.
Sinopse: Lançado em 1956, o segundo romance de James Baldwin é uma obra-prima da literatura americana. Com pinceladas autobiográficas, o livro trata de uma relação bissexual ao acompanhar David, um jovem americano em Paris à espera de sua namorada, Hella, que por sua vez está na Espanha. Enquanto ela pondera se deve ou não se casar com David, ele conhece Giovanni, um garçom italiano por quem se apaixona. Se em "O sol também se levanta" Ernest Hemingway retrata um grupo de americanos em uma Paris boêmia e fervilhante, "O quarto de Giovanni" explora, na mesma cidade, as agruras de personagens que enfrentam o vazio existencial ao perceber a fragilidade dos laços e as frustrações de seus desejos. Com tradução de Paulo Henriques Britto, o livro inclui apresentação de Colm Tóibín e posfácio de Hélio Menezes.


Sobre o livro


O Quarto de Giovanni foi lançado em 1956 e é o segundo livro do autor. A narrativa conta a história de David, um jovem americano que passa um período em Paris, numa verdadeira vida boêmia, enquanto espera sua namorada voltar da Espanha e finalmente lhe dizer se vai ou não casar com ele. Enquanto isso, David acaba conhecendo Giovanni e se apaixona por ele.



Minha opinião

Me parecendo que a história teria um toque pra lá de Me Chame Pelo Seu Nome devido a sinopse (ou o contrário já que esse livro foi lançado muito antes), fiquei curiosíssima para ler. Na verdade nem me importava se fosse o mesmo estilo e a mesma vibe, apesar que me faria muito feliz, já que a história de Élio e Oliver me conquistou de forma significativa, o que eu sabia era que queria muito conhecer a história de David e Giovanni.

O livro é dividido em duas partes e conta ainda com uma introdução e dois textos de apoio. Se você não gosta de spoilers, recomendo pular a introdução. Mas pessoalmente não acredito que ler antes vá estragar sua experiência. Há sim uma breve análise e alguns trechos interpretados ali, mas até você chegar nesse ponto é provável que nem lembre. Ou lembre e consiga concordar ou discordar daquela análise.

O que me chamou bastante atenção foi o fato de que desde as primeiras páginas encontramos um David no fundo do poço e descobrimos que Giovanni está prestes a perder a sua vida. O narrador não deixa claro o motivo, esse é o grande suspense da história. A narrativa então é intercalada com o presente de David numa casa vazia em que ele está prestes a entregar para a proprietária e suas memórias do romance que teve com Giovanni.

Nas próprias palavras do autor, "O Quarto de Giovanni não é exatamente sobre homossexualidade, é sobre o que acontece quando se tem medo de amar alguém, o que é muito mais interessante." E de fato, é realmente mais interessante. Particularmente eu sou fascinada com o nosso medo de nos entregarmos à alguém mesmo que nós queiramos desesperadamente. É um tema um tanto quanto complexo, nós acreditamos tanto nesse tipo de amor mas ainda assim somos relutantes.


"— As pessoas sempre dizem: é preciso esperar, esperar. Elas estão esperando o quê? [...] — acho que as pessoas esperam pra ter certeza do que estão sentindo. [...] Apontou para meu coração. — Nas vezes que esperou, você acabou tendo certeza?"

Nesse caso, mesmo realmente não sendo exatamente sobre homossexualidade, ainda é ela o motivo que faz os personagens serem tão contraditórios, ambíguos e instáveis. O ponto principal do livro não é o mistério que o fim da vida de Giovanni carrega, mas sim essa constante luta interna dos personagens com eles mesmos, com um especial foco em David que é nosso protagonista. 

A narrativa se passa numa Paris boêmia na década de 1950 e apesar das personagens conviverem com outras como elas é quase impossível achar um aceitamento completo delas com elas mesmas. David se vê apaixonado por um outro homem no meio de um relacionamento com uma mulher e aproveita que ela está longe pensando se quer casar com ele para aproveitar esse amor da forma mais intensa que consegue.

David nos conta sua história com Giovanni e ao mesmo tempo que se delicia com suas lembranças, ele se envergonha e sente repulsa pelo próprio desejo. E é por isso que ele é um personagem tão instável, ele está redescobrindo sua sexualidade em uma época em que se relacionar com alguém do mesmo sexo era visto como imoral e com isso vemos ele oscilar entre um papel e outro: o que é esperado dele e o que ele realmente quer interpretar, mesmo que negue isso até o fim.

Vale deixar minha visão de que David e Giovanni não são gays e sim bissexuais mas o próprio autor não vê importância nesse tipo de rotulação:


"porque esses termos, homossexual, bissexual, heterossexual, são termos do século XX que, para mim têm muito pouco significado. Pessoalmente, ao ver outras pessoas, observando a vida, nunca fui capaz de discernir exatamente onde as barreiras estão" (entrevista concedida a James Mossman, 1965)

Talvez todo o dilema de David seja esse conflito entre seus papéis sociais. Até nos dias de hoje é bem comum termos a visão de que homossexuais são como "mulherzinhas", o que nos leva também a uma questão misógina já que esse termo é usado de forma pejorativa, nos passando a imagem de que ser mulher é algo ruim e inferior. E sendo um homem dos anos 50, David carrega essa visão e se vê em conflito quando é percebido nessa posição, ainda mais porque entre os dois era Giovanni que saía para trabalhar e ele que ficava em casa.

Apesar de não ser nada como Me Chame Pelo Seu Nome, como eu achei que seria, há sim alguns toques que me fazem colocar ambos numa categoria parecida. Apesar de ter uma pegada mais pesada e até um pouco triste, O Quarto de Giovanni compartilha da mesma qualidade e emoção que senti lendo o outro livro. E apesar de ser só uma suposição, não duvido nada que Andre Aciman tenha se inspirado, ainda que de forma bem pequena, em Baldwin. No fim, de uma coisa eu estava certa: eu sabia que me apaixonaria pelo livro.


3 comentários

  1. Aline!
    Nossa! Nunca li nenhum livro no gênero, mas achei interessante, embora seja um drama grande e de certo forma, de maneira bem intensa.
    As personagens parecem bem delineadas, embora todas as dúvidas que sentem.
    Quero poder ler.
    Uma semana pleno de luz e paz!
    “Oh, faz-nos felizes, e nos terás feito bons.” (Robert Browning)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA NOVEMBRO - 5 GANHADORES – BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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  2. Olá Aline,
    Bem, analisando dá para perceber que esse livro é bem mais intenso que "Me chame pelo seu nome", mas os dois sãossão histórias de descoberta de si mesmo.
    É engraçado ler uma história que se passa em outra época, e que ainda assim nos faz ver elementos presentes no nosso dia a dia, acredito que o autor quis nos entregar um personagem tentando lidar com seus próprios medos e desejos, e a sociedade, bem, essa sempre tende a interferir em nossas vidas, de uma forma ou de outra!
    Bem, mais uma vez, intenso é a palavra que definiria esse enredo para mim.
    Beijos

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  3. Oi, Aline!
    Confesso que não gosto de histórias onde os personagens relutam em se entregar ao amor por causa de sentir medo, gosto de personagens determinados, que sabem o que quer e vai a luta...essa oscilação que ocorre com o David - entre o que ele quer e o que ele quer interpretar - é algo bem frustrante para mim e bastante negativo... por isso O Quarto de Giovanni  não despertou o meu interesse e portanto dificilmente eu o leria... Abraços!

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